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A Relíquia

quinta-feira, 28 de abril de 2011


por Ledha e Daisy Mendes



A estória que vou contar prende-se ao campo do fantástico. Muitos podem pensar que é produto da imaginação. Mas não é. Aconteceu realmente. Aconteceu comigo.

Mas ouçam:

Certo dia, chuvoso e cinzento, saí de casa a contragosto, para levar a um estranho, recado urgente de amigo meu. Confesso que a incumbência não me agradava em nada. Em todo o caso, em nome de uma grande amizade, não pude furtar-me a ela.

E eis-me ali, debaixo de grossas bátegas de chuva, envolvido na maior ventania, a apertar furiosamente o botão da campainha.

Após impaciente espera, a porta foi aberta por uma criada, que me conduziu a sala, solicitando-me que aguardasse, pois o patrão não tardaria.

Muito contrariado, permaneci a espera e, inconscientemente, meus olhos procuravam algo que se distraísse. Fui atraído por uma caixa preta, fechada. Curiosamente, abri-a e ouvi estarrecido:

“Puxa, até que enfim alguém ouviu minhas preces, dando-me um pouco de ar. Como é triste o cativeiro, e como estava quente aqui!”

Soltei a caixa. Recuei apavorado. Aquela coisa falava! Teria eu enlouquecido?

Quando ainda tentava me convencer de que tudo não passava de produto de minha mente, uma ilusão, escutei novamente estupefato:


“Vejo que entendes minha linguagem. Só podes ser um artista. Um poeta. Pois só um poeta teria a sensibilidade para ouvir-me. Vamos, não te amedrontes, sejamos amigos.”

Ainda de longe, olhei para a porta, para a janela, buscando algo. Um gravador, uma pessoa... Qualquer coisa enfim, que me desse à pista de piada de tão grosseiro gosto. Lembrei-me da criada. Seria ela? Mas, não. Era velha e tola.

Perdido em indagações, ouvi novamente:

“Ei amigo! Sou eu mesmo, o microscópio, que está te falando. Não te perturbes, aproxima-te, vem.”

Vagarosamente, cautelosamente, sem ruídos, aproximei-me. Queria descobrir o que me apavorava. Devia haver algum engano. Impossível acreditar naquilo. Ao chegar até a caixa, o microscópio, pois era isso que estava encerrado naquela caixa maldita, falou-me:

“Não temas, sou eu mesmo que estou te falando. Não estás louco. Os homens não sabem que também as coisas podem falar. Que nós vivemos; temos a nossa juventude, nossa velhice, nossos amores, nosso trabalho. Também atingimos o apogeu e a glória. E, um dia, o declínio e o esquecimento.”

Tanta amargura havia em suas últimas palavras que eu, penalizado, surpreendi-me respondendo:

“Mas, falas? Vives? Amas? Falas de glórias e esquecimentos?”

“Ouve.” --- respondeu-me --- “Aproxima-te. Vou contar-te a minha estória. Minha pobre estória.”.

Procurei uma cadeira, sentei-me e ouvi:

“Nasci na Alemanha. Na loira e doce Alemanha. Mãos habilidosas construíram-me dentro dos requisitos da mais moderna ciência. Depois, colocado em berço de veludo, fui com outros, enviado à França, minha pátria de adoção. Lá, em grande loja, fui escolhido entre todos, por ser o mais perfeito, para permanecer em vitrine feita especialmente para mim. Como fiquei orgulhoso. Eu era um vencedor, o mais belo, o melhor. Olhava os outros com desdém. Não lhes dirigia a palavra; não queria rebaixar-me a isso. Mas, houve alguém que chamou minha atenção: Silvia. Bela, loira, luminosa. Espalhava ao seu redor luz e alegria. Tinha para todos um sorriso, uma palavra amiga. Vê-la, foi ama-la. Foi meu único amor. Fui plenamente retribuído. Sílvia era uma lâmpada. Que doces momentos de enlevo vivemos! Silvia era suave e linda, tinha para mim palavras de grande meiguice. Ela era toda minha e nosso amor iluminava a vitrine que nos servia de lar. Mas... Há sempre um “mas” numa estória de amor. Um dia, reparamos que alguém me olhava com cobiça, com interesse evidente. Silvia alarmou-se. Mas, eu não me abalei. Procurei acalmá-la. Eu era uma grande atração e ninguém poderia comprar-me. Como eu estava engando! Não conhecia o valor do dinheiro. Vi o freguês entrar na loja e me apontar. Eu sorria, enquanto Silvia chorava. Dentro da loja o ambiente tornou-se tenso, quase hostil. Reparei que o empregado procurava o meu dono e este, sorrindo, pegou-me e vendeu-me ao desconhecido. Ainda antes de ser embrulhado, ouvi o grito angustiado da minha Silvia. Meus olhos a procuraram desesperadamente, para o nosso último adeus. Mas, ela... Ela tinha apagado. Estava morta. Morrera a minha doce e amada Silvia.”.

Eu ouvia a narração com evidente interesse. Confesso que a morte de Silvia chegou a me comover. Mais, eis que, após um soluço, com a voz ainda embargada pela emoção, o meu novo amigo continuou:

“O que sofri, só aqueles que perdem o ser amado podem entender. Não o desejo a ninguém. Por muito tempo permaneci embrulhado, em completa escuridão. Mas um dia, senti que mãos cuidadosas me davam liberdade. Encontrei-me em um laboratório. Frio, moderníssimo, impecável. Dentro de minha desilusão com os homens e o luto e a tristeza pela perda de Silvia, resolvi entregar-me loucamente ao trabalho. E o fiz. Mas, a noite trazia, com sua calmaria, o horror da ausência, da saudade. Como dói a solidão! No entanto, o tempo, o grande remédio para todos os males, foi passando; e minhas feridas cicatrizando. Passei a notar que eu era o centro de todas as atenções. Todos me queriam. Todos me requisitavam. Muitos vinham de longe para utilizar-me. Só confiavam em mim. E a vaidade foi, pouco a pouco, novamente, tomando conta de mim. Eu não conversava com ninguém. Não achava meus companheiros dignos de minha posição. Eu os desprezava. Somente um chegou a gozar de minha benevolência. Um pobre coitado. Condoí-me dele. Charles, o pobre e velho Charles. Uma tesoura velha, enferrujada, sem ponta, jogada de cá para lá. Usada por todos e para tudo; menos para cortar. A todos Charles servilmente atendia, o que me causava raiva. Certa noite, quando o velho Charles, mais morto do que vivo, gemendo, procurava conciliar o sono, surpreendi-me dizendo-lhe: ‘Charles, você tem que se impor e só fazer aquilo para que foi destinado. Você se avilta muito inutilmente. ’ Meu novo amigo, dentro da sabedoria de seus muitos anos vividos, respondeu-me: ‘Filho, ainda és muito jovem e pecas pela imaturidade. Alegro-me que ainda me usem. Sou útil. E só vivemos enquanto temos utilidade. Não deves deixar que a vaidade te suba a, pois um dia também envelhecerás. E outro, com maiores qualidades do que tu, virá ocupar o teu lugar. ’ Pobre velho, pense, divaga! Calei-me, compadecido. Nessa noite nasceu nossa amizade e foi crescendo, crescendo. Muitas vezes ouvi estórias da mocidade de Charles. Um dia, contei-lhe de Silvia. E ouve, amigo meu, Charles chorou. O tempo foi passando. Já não me sentia tão só. As noites não eram tão terríveis. Eu tinha um amigo. Eu tinha Charles. Vi muitos companheiros terminarem seus dias no maldito latão de lixo. Não me apiedava. Era a vida; e eu andava assoberbado de trabalho. Certo dia fui requisitado para pesquisa de grande responsabilidade. De repente, minha atenção foi desviada para mãos inimigas que pegaram o meu amigo, o bom e velho Charles, e o lançaram dentre daquele latão, cuja boca negra, escancarou-se para sorvê-lo. Ouvi, apavorado, o grito lamentoso do desgraçado velho. Perturbei-me, e algo aconteceu, pois as mãos que me utilizavam, impaciente e raivosamente jogaram-me de lado. Fiquei desconsolado. Até quanto eu teria errado? Por que a vida me mostrava teimosamente sua face mais negra? Primeiro Silvia, depois Charles e agora isso. Procurei consolar-me, pensando que talvez aquelas mãos, esquecidas do meu erro, me empunhassem novamente no dia seguinte. E assim passei a mais longa noite da minha vida, sem a sabedoria do velho amigo para me aconselhar. Notava os olhares de prazer dos que me cercavam. Eu sempre os desprezara e hoje eles se regozijavam com minha desgraça. A claridade da manhã foi se aproximando. Com ela, o medo foi aumentando. Na hora do trabalho, vi as mãos chegarem. Estremeci. Pegaram-me e olhos frios me analisaram. Angustiado, esperei. Mas eis que aquelas mãos, para quem eu tanto tinha trabalhado, impacientemente jogaram-me num canto e dirigiram-se para um pacote. Apreensivo, aguardei. Estava apavorado. Desembrulhado, ele apareceu. Como o odiei. Ainda hoje tremo ao me lembrar. Surgiu altaneiro, jovem, moderno, como eu o fora, aquele que vinha me substituir. O novo microscópio passou a ter todas as honras que eu tivera e a tratar a todos, inclusive a mim, com manifesta superioridade. E eu? Fui jogado num canto imundo, onde a poeira e as teias de aranha se apoderaram de mim. Passei há contar o tempo. Só que o tempo não contava para mim.”.

Eu ouvia fascinado. E ele, suspirando, continuou:

“Uma tarde, mãos grosseiras me pegaram, embrulharam-me num pedaço sujo de jornal. Passado muito tempo, vi-me em pobre oficina, onde mãos laboriosas tentaram, inutilmente, curar minhas avarias. Mas era tarde demais. Nunca voltaria ao que fora. E assim, o destino levou-me a uma lojinha escura, onde, em vitrine poeirenta, passei a contemplar a viela suja e cinzenta, assistindo o desenrolar do tempo. Envelhecia. Cochilava. Uma vez, assustadoramente, senti-me alvo de olhos gulosos. Desejavam-me. Um menino e um velho, que respondia com um sorriso a súplica dos olhos infantis. Alarmei-me. Senti o perigo rondar a mansidão da minha velhice. E não me enganava. Logo depois, grosseiramente embrulhado, as mãos ávidas infantis se apossaram de mim. Pierre, o menino, orgulhosamente era meu novo dono.

“De toda a minha vida, estes foram os dias mais odiosos que passei. Cheguei a invejar a morte prematura de Silvia e até mesmo o aviltamento do velho Charles no laboratório; eu não teria o consolo de morrera em um, por mais humilde que fosse. Pierre não me largava. Minha degradação foi total. Como o odeio. Obrigava-me a desempenhar as mais tolas e estúpidas experiências. Eu, que um dia o líder de renomados cientistas! Como caí baixo! Sempre entre brinquedos imundos e em frangalhos, cheio de asco e amarguras. As noites, que uma vez eu tanto temera, passaram a serem minhas amigas, detestando o raiar de cada dia, com sua carga de dissabores nas mãos de meu pequeno algoz. Mas, um dia silenciou. Eu num canto do quarto de Pierre, esquecido. Não compreendi muito bem, mas com o transcorrer do tempo, fiquei certo de que Pierre se ausentara. Senti-me livre de sua abominável figura. Serenei. Cheguei a ficar quase feliz. Estava em paz. As semanas foram se escoando dentro da penumbra do quarto. Certa tarde,vi réstea de luz, e ainda atordoado pela súbita claridade, reparei que entrava tropegamente no quarto o velho que ocasionara todos os meus tormentos. Estremeci. Iriam recomeçar-me meus sofrimentos? Iriam me levar para Pierre? Observei o seu andar vacilante, seus cabelos desalinhados, e seus olhos não dormidos. Pegou-me tremulamente e lágrimas começaram a formar sulcos em suas faces emagrecidas. Limpou-me carinhosamente; com tanta tristeza que julguei que estivesse arrependido por ter me ocasionado tal sina. Mas, de repente, prendeu-me nessa caixa. Perplexo, vi que me roubara tudo: a liberdade, a vida, a paz. E tu, meu amigo, me restituíste a vida. Diz-me: podes me libertar? Podes afastar de mim esse ridículo menino que tanto mal me tem causado?”

Quando ia responder-lhe, senti a porta abrir-se suavemente. Um senhor idoso entrou na sala. Seu semblante toldou-se de tristeza ao ver-me com o microscópio na mão. Seus olhos marejaram-se e algumas lágrimas, por demais teimosas, rolaram em seu semblante emagrecido e enrugado rosto cansado. Em voz baixa, muito baixa, embargado pela emoção, que se esforçava por conter, murmurou:

“Pertencia ao meu netinho, sabe? Ele o adorava. Se tivesse vivido, teria sido um grande cientista. Morreu, repentinamente, há alguns meses. Para mim, esse microscópio é uma relíquia.”

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