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Fada

domingo, 26 de junho de 2011



Leila suavemente dormia aconchegada em sua cama. Era um sono tranquilo, já tarde da noite.
- Acorda Leila! Vamos acorda!
Ainda assonada, sem entender muito bem, a menina responde:
-Quem é você? Que está fazendo no meu quarto a essa hora?
-Sou o mensageiro da Rainha dos Sois, ela quer lhe falar.
-Ela vai ter que esperar, pois quero dormir agora. Talvez amanhã eu fale com essa rainha.
-Leila você não entendeu, a Rainha não pede, ela manda.
-Pode mandar em quem quiser desde que não seja eu. Olha, eu tenho prova de matemática amanhã cedo, estudei para caramba, agora eu vou dormir. Depois da minha prova, quem sabe?
Sem entender como, Leila estava com as mãos coladas uma a outra, e sendo levada, sem saber para onde.
-Ei, o que pensa que está fazendo? Conhece direitos humanos, garantia de liberdade, etc, etc, etc... Eu já disse não quero ir!!!
-Desculpe Fada. Estou cumprido às ordens da Rainha, e tenho mais medo dela do que de você.
-Meu nome é Leila, eu odeio essa de apelidinhos... Para onde me leva?
-Para o palácio de Sua Majestade, é logico.
Leila não conseguia entender muita coisa, estava em pé, sem se mover, mas seu corpo voava pelo céu, num emaranhado de nuvens, vento, e chuva. Nada que ela pudesse achar legal, talvez parecido com a sensação da prova de matemática....
-Oh mensageiro, não tem uma forma mais confortável para me levar?
-Desculpe Fada, mas todas as linhas de acesso estão sendo vigiadas; esta é a forma mais segura.
-Seguras para quem? Isso aqui é quase um martírio. Quanto tempo leva para chegar, sei lá aonde?
-Fique tranquila Fada; em menos de três horas estaremos lá.
-Você quer que eu tome toda essa chuva, vento, tempestade, por três horas, para falar com uma rainha não sei de que?
-Rainha dos Sois.
-Dá pelo menos para soltar as minhas mãos?
-Desculpe Fada, recebi ordens para transporta-la assim; e sei dos seus poderes, por isso suas mãos estão coladas.
-Aí Meu Deus! Estou sendo levada por um maluco... Eu não me chamo Fada, eu não tenho poderes, você pegou a pessoa errada.
-Fada, é você mesmo que a Rainha tem pressa em falar. E não sou maluco, sou Duque de Saturno, assessor direto da Rainha, e vim pessoalmente lhe buscar, pois sua nobre visita é importante demais para confiarmos em alguém.
Não confiam em ninguém, mas nem se preocupam se eu pegar uma gripe e morrer com pneumonia, pensou Leila.
Completamente molhada e com muito frio, Leila se vê as portas do imenso palácio todo de ouro. O brilho era tanto que lhe incomodava a visão, belíssimo era pouco para descrevê-lo.
Foi seguindo o Duque por corredores e salas; e pararam em frente a uma grande porta.
- Vou apresenta-la a Rainha, por favor, comporte-se diante da majestade.
-O que você esta querendo dizer com isso?
Mas o Duque apenas abriu a porta curvou-se e falou Vossa Majestade a Fada.
Leila arregalou os olhos quando vislumbrou a mulher toda vestida de dourado, com uma vasta e linda cabeleira cheia de cachos negros...
-Duque, pode se retirar...
-Como vai Leilah?
As mãos milagrosamente descolaram, e estavam livres...
-Majestade meu nome é Leila.
-Leilah, eu sei muito bem quem é você.
Leila manteve o olhar firme.
-Leilah, a Princesa de Júpiter. Levada ainda bebê para viver na Terra como uma criança comum, por dois motivos: segurança pessoal e para ver de perto o bem e o mal. Possuidora de inúmeros dons, conhecida pelos seus súditos como a Fada... Então Leilah, vai continuar negando?
-E se eu fosse essa Leilah, o que Vossa Majestade iria me falar?
-Leilah, estou cansada para brincar de gato e rato. Sei bem que é você. Mandei busca-la,  pois  estou sem nenhuma alternativa, estou sendo perseguida pelo Marquês de Plutão...
-Mas Majestade, que eu saiba a Rainha do Sois é possuidora de enormes dons, não necessita de ninguém...
- Eu perdi meus dons, provisoriamente espero. Isso me deixou a mercê de mau feitores...
- Como perdeu seus dons? Uma Rainha dos Sois, não perde facilmente seus dons, e menos ainda todos os dons...
-Leilah, não lhe trouxe aqui para ser interrogada. Apenas para que impeça que o Marquês de Plutão se aproxime dos Sois, isso seria calamitoso para todos, inclusive para Júpiter...
-Perdão Majestade, mas sou sequestrada do meu leito quentinho porque a senhora de alguma forma conseguiu um inimigo e agora quer que eu Leila, o derrote?
-Eu não diria dessa forma, mas é quase isso. Vou colocar todos os meus exércitos as suas ordens e...
-Calma, calminha mesmo... Acho que Vossa Majestade esqueceu algo de suma importância quando estudou minha biografia..
-O que Leilah? Vamos tenho pressa...
-Majestade, Fadas não guerreiam. Fadas não lutam. Fadas não alimentos sentimentos negativos... Qualquer uso do mal faz com que os dons sejam retirados e até extintos... Foi isso que aconteceu com a Senhora?
-Leilah, acho que você não está entendendo. Isso é inevitável, não tem outra forma...
-Majestade outra forma sempre há, talvez não tão confortável para Senhora, mas há...
-Qual Leilah? Qual?
-Converse com o Marques..
-Você está louca, isso está fora de cogitação; acho que a matemática embotou seu pensamento.
-Bem eu lhe diria isso: é seu caminho, pois Leilah, a Fada, não colocará seus dons em risco, pois a perda dos meus dons prejudicaria em muito meu reino, meu povo, meu mundo. Isso é uma verdade, e está na sua hora de aprender Rainha, tem que impedir a guerra sem nenhuma guerra, tem que fazer do seu inimigo seu amigo...
-Leilah isso é literatura barata...
-Rainha, meus dias na terra mostraram-me o resultado da vitória através da força, e é algo terrível, mortes, devassidão, destruição, inocentes destruídos. E o que se constrói depois mais ódio. Só tem um caminho para tudo o amor, e se quer defender seu reino, somente com amor. E Majestade, essa é minha ultima palavra, gostaria agora que me encaminhasse para casa, pois tenho uma prova de matemática em poucas horas...
-Leilah, você não pode se negar.
-Errado Majestade, a Senhora não pode me obrigar, agora entendo como foi perdendo os seus dons, e imagino que para a Senhora viver sem eles não é nada fácil...
A Rainha olha firme e autoritariamente, mas nada diz. Caminha um pouco. E fala
-Fada, não socorrer alguém em perigo também é um mau ato, não socorrer um povo todo em via de ser extinto, também não é bom...
-Se Vossa Majestade quiser podemos eu e a senhora conversar com o Marques para encontrarmos um equilíbrio nisso.
-É sua ultima palavra?
-Sim...
-O Marques é um homem perigoso.
-Todas as pessoas são perigosas quando acuadas.
-Está bem, Fada teimosa.
-Vou mandar meus mensageiros convidar o Marques para um dialogo.
-Espero que não use os mesmos métodos que usou comigo, seja mais sutil, mais amigável.
-Chega Leilah!
A Rainha levantou uma das mãos e o Duque de Saturno prontamente entrou na sala.
-Duque encaminhe Leilah, para o quarto para que possa descansar um pouco.
-Eu quero ir para o meu quarto – exclama Leila já um tanto cansada.


Enquanto é levada para a ala dos quarto, Leila observa a maravilhosa paisagem pelos janelões do palácio.
De repente, Leila tem a sensação de visão turva e parece que tudo roda em sua volta...
Leila fecha os olhos.
E quando os abre um tanto desconfiada, encontra- se em outro lugar. Uma imensa sala hexagonal em tons vermelhos, e no centro dela um homem alto, muito bonito a encara.
Leila diz:
- Não me fale, deixe-me adivinha... Marques de Plutão?
-Exatamente, Princesa.
-Eu adoro como vocês são hospitaleiros por aqui.
Fala em ironia.
-Senhor Marques, eu não sei o que está acontecendo entre o senhor e a senhora dos Sois, mas realmente prefiro não me envolver em disputas. Gostaria de ser envia para o meu quarto, para meu leito, pois tenho uma prova de matemática daqui a pouco.
-Lamento profundamente o inconveniente de tê-la trazido aqui dessa forma. Não tive alternativa. Sei que gostaria de estar em sua casa, mas tenho que pedir seu auxilio e sua orientação.
-Falou bonito, mas realmente o que quer dizer é que quer que participe nessa guerra de Sois e Plutão... Já lhe adianto não participo de guerras...
-Não Leilah, também não quero guerras...
-Agora eu não entendi. Não há guerra?
-Acho que você conheceu Lorena?
-Se é esse o nome da Rainha dos Sois, eu a conheci sim.
-Esse é o nome dela, mas ela não é a Rainha dos Sois. A Rainha dos Sois encontra-se cativa no palácio. Você deve ter percebido que Lorena não tem nenhum dom.
-Isso ficou muito claro.
-Ela os perdeu todos praticando atos escusos.
-Qualquer um pode perder o seus dons...
-Sim, mas a verdadeira Rainha dos Sois, nunca perde os dois dons inerentes ao seu reino: o do fogo e o das luzes. E você deve ter percebido que Lorena não tem nenhum dom, nem esses.
-Sim, tem razão. Ela parece muito frágil...
-Sim, frágil...
-Estranha a sua forma de falar da sua inimiga...
-Ela não é minha inimiga, é a maior amiga que tenho, por isso preciso ajuda-la...
-Espera aí, acho que estou com muito sono; pois não estou entendendo nada. A Rainha dos Sois é prisioneira de Lorena, e Lorena é sua maior amiga... Afinal, você quer ajudar Lorena ou a Rainha dos Sois?
-As duas, Leila... Lorena é minha esposa...
A resposta espantou Leila, que apenas olhou para o Marques.
-Lorena, é doce e meiga, muito franzina. Temos um filho recém-nascido. Foi um parto muito difícil. Após o parto ela ficou muito depressiva, e foi piorando, busquei todos os médicos possíveis, mas Lorena só piorava. Um dia sumiu... O resto você pode imaginar. Assumiu os Sois, reino da sua maior amiga, que sabendo de toda a situação não ofereceu nenhuma resistência, apenas encaminhou um mensageiro relatando o que estava acontecendo, e pedia para que eu solucionasse isso de forma pacifica. Pedi ao Duque de Saturno que apoiasse Lorena para protegê-la dela mesma. Ele mesmo sugeriu você a Lorena.
-Espera um pouco, eu! Que tenho eu com isso? Vá lá pegue sua mulher e resolva as coisas...
-Leilah, se fosse só isso já teria feito. Lorena, não me reconhece como seu amigo, companheiro, marido. Muito pelo contrario, acha que posso destruí-la. O único caminho que tenho é lhe despertar novamente o amor.
-Ótimo, vai lá, dá um beijo de cinema nela, e vivam felizes para sempre. Todas as histórias terminam assim... Você já não cansou de ver isso?
-Ah Leilah, só você para me fazer rir agora... Minha Princesa de Júpiter, quero que você vá lá comigo e a toque.
-Poderia me explicar melhor isso? Estive com ela, fui levada pelo Duque de Saturno, seu aliado; se é só colocar minha mão nela, ele deveria ter me falado, e não quase me matado afogada naquele temporal.
-Leilah, você é a Fada, a Princesa de Júpiter, o grande reino das expansões. Um dos seus dons é aumentar qualquer coisa, inclusive os sentimentos. Todo o meu amor por Lorena não conseguiu traze-la de volta. Mas se nós dois juntos.
-Entendi, você ama, e eu expando mais ainda o seu amor.
-Se você a ama tanto assim, por que precisa da minha expansão?
-Não sei Leilah, mas meu amor não surtiu efeito. Acho talvez que por estarmos juntos há tanto tempo, a rotina, o dia a dia, não sei... Ela não acredita, nem sente o meu amor... Querida, ela está muito doente.
-Esta bem... Mas antes quero algo.
-Diga.
-Quero ter certeza que é verdade tudo que me diz. Segure a minha mão, assim eu saberei.
Prontamente o Marquês estendeu a mão. Leilah a tocou, no inicio suavemente, depois com firmeza. No mesmo momento começou a sentir a energia forte do Marques. Uma energia plutônica caraterística, envolta em amor e sensualidade. Mesmo assim quis ter certeza.
-Abaixe-se, por favor.
Com a outra mão tocou levemente no pescoço bem abaixo do queixo do Marques, e depois em um ponto na sua testa.
-Sinto sua verdade, irei com você.

Leila e o Marques chegam ao Palácio dos Sois, são recebidos pelo Duque de Saturno.
-Como ela está?
-Do mesmo jeito amigo, recolhida na sala do trono. Apesar de arrogante, parece muito amedrontada.
-Vamos à sala do trono.
Caminharam depressa pelos corredores, e adentraram a sala sem nenhum aviso.
-Que é isso? – falou Lorena – Está invadindo o meu reino.
Prontamente Leila respondeu.
-Logico que não, Majestade. Trouxe o Marques para conversarmos, como havíamos combinado. Não se esqueceu?
-Não, Leilah, não esqueci. Mas esperava ser avisada antes.
-Achei que tinha pressa em resolver a situação Majestade...
-Bem, senhor Marques, o que o senhor deseja do meu reino?
-Do seu reino nada... De você, muito... Lorena, eu a quero de volta, você é parte de mim, sem você a vida não tem o mesmo brilho, a mesma beleza, a mesma alegria... Sem você não tem como continuar. Eu a amo sempre lhe amei...
-Pronto, a mesma coisa de sempre. Leilah, isto é inútil, o Marques é um mentiroso, um farsante, e me quer prisioneira dele.
-Lorena, pense, lembre, sou eu, meu amor.
-Não sei o que diz... Por favor, isso é cansativo, e enfadonho.
Leilah se aproxima de Lorena.
-Majestade, parece mesmo muito cansada. Acho que esta conversa pode ser longa. Venha sente-se aqui. – E pegou lhe a mão como se fosse encaminhar para o trono.
Segurou com firmeza a mão de Lorena, e depois apertou um pouco mais.
Lorena pareceu atordoada, olhou em volta, e encarou o Marques.
-Felipe! Felipe! O que está acontecendo?
E desfaleceu...
O Marques correu segurou nos braços, um pouco assustado também.
Leila soltou a mão de Lorena, e dirigiu as suas duas mãos, primeiro para o coração de Lorena, e depois para sua cabeça.
E se afastou...
Lorena abriu os olhos, e disse:
-Felipe, meu amor, onde estou? O que está acontecendo?
-Nada meu amor, está tudo bem. Estamos indo para casa e tudo vai ser igual a antes.
-Felipe, eu...
O Marques suavemente acariciou a boca da esposa.
-Não diga nada, tudo já passou, acabou... Vai ficar tudo bem, meu amor...


-Leila! Leila! Acorde filhinha, hora da escola..
-Ah, mãe, só mais um pouquinho...
-Vamos levante, sua fadinha preguiçosa, você tem prova de matemática, esqueceu?

Crônica de Direitos

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Eu entendo que a vida é um aprendizado. Por isso mesmo acho que depois de um tempo adquirimos certos direitos que nos são caros, e ficam arraigados em nós.
A segurança,  é findo o tempo de provas, onde os outros pensam é o meu vale como meu valor. Aprendi o meu próprio valor, adquiri respeito pelo que sou, nada tenho que provar a ninguém; e quem não o percebe é limitado ou burro, e a culpa não é minha.
Uso as roupas de acordo com a minha moda, o que gosto, o que quero; não faço mais parte de um grupo idêntico, em que nem se consegue diferenciar os rostos de tanto que se copiam; sou um ser único. Eu apareço na multidão, está se usando só cinza, pois hoje quero o verde, e daí? Estou liberta dessas regras inúteis, que deveria mais se preocupar com os que não têm o que vestir, ou comer; do que ficar calcando na cabeça dos outros que agora usa sapato sem meia.
Posso sempre falar o que penso, talvez eu ainda atenue na forma que eu falo, mas me perguntou o que acho eu respondo com a mais pura verdade. Isso agora chama de sabedoria ou experiência. Quando era jovem diziam que era delírio...
Escuto o que quero, pois o que não quero, passam pelos meus ouvidos e não deixam sua marca. Posso até dizer, num ímpeto de brincadeira: “como? Acho que não estou escutando direito.”
Não me preocupo com o amanhã, descobri que o amanhã é sempre diferente do que imaginei ou temi; então para que se preocupar... Se for bom ótimo, se for mal, procuro ver seu lado bom, porque garanto que vai me ensinar alguma coisa, por isso também é bom.
Ficar só, muitos dizem: “que coisa horrível!” Horrível nada! Passei anos me conhecendo, e sabe eu gostei de mim, o que não gostei fiz uns ajustes e pronto: “Voilá!” Tem aquele dia que quero apenas estar comigo, na minha paz, no meu silêncio, no meu interior, no meu mundo... Mas as pessoas cismam de ligar no meu celular, tentando me obrigar a ouvi-las. Não, não, não!!! Respeitem as minhas escolhas. Elas são minhas. Passei anos da minha vida, fazendo as escolhas dos outros; diziam: “faça assim.” Sorria, é educado, mesmo que seja para um chato ou sacana, e você saiba de trilhões de falcatruas dele. Apenas sorria e seja educada. Bem continuo educada, mas não comprimento pilantras, nem sequer os vejo.
Passei anos da minha vida ouvindo pessoas desarrazoadas, que me monopolizava para provar que tinha razão em algo que ela mesma sabia que estava errada... Isso chamava de educação, isso hoje chamo de loucura.
Acabou, quer conversar comigo, converse também com sabedoria, seja humilde e diga: fiz algo horrível, você nem imagina....
Quero sim conversar, quando sentir que estou num bom astral, para brincar, sorrir, gargalhar, e passar com boas coisas as pessoas. Quero falar, com meus amigos sinceros quando precisar de um conselho, de um afago, ou de um puxão de orelha.
Eu me liberto das regras inúteis dos homens. E me entrelaço fortemente a todas as regras de Deus, essa é minha meta melhorar como ser humano, Ele me deu uma vida para que eu aprendesse no mínimo: amai-vos uns aos outros. E é isso que estou tentando fazer.
Estou livre da culpa e do julgamento errôneo dos outros. Perdoo todos, e peço também perdão nos meus erros. Estamos zerados.
Nada mais me prende nada mais me importa, o passado acabou, e hoje é um novo dia para ser bem vivido.
E os que ontem me chamavam de louca, hoje me admiram chamando de excêntrica.

Corredores

sábado, 18 de junho de 2011


Nos corredores frios do hospital Leila espera... O que? Ela nem quer imaginar. Esperança, milagre, benção; na verdade qualquer coisa, que afaste essa dor tão próxima.
Levanta, vai à máquina de café, e coloca uma moeda, para tentar aquecer o corpo; já que sua alma está gelada. Teimosas lágrimas escapam por seus olhos verdes.
Ela caminha um tanto trôpega, do cansaço, do frio, da falta de alimentação, do corpo pesado que apenas espera.
Dr. Renato se aproxima, e mansamente diz: “temos que aguardar...”.
-“Eu preciso vê-la.”
-“Leila, agora não. Vá para casa, descanse um pouco.”
-“Você não entende, preciso falar com ela antes que seja tarde. Vou ficar aqui, vou esperar aqui, não me importa por quanto tempo.”
-“Leila, você não a está ajudando em nada ficando aqui, precisa descansar; ela vai precisar muito de você depois.”
-“Eu entendo, Dr. Renato; mas vou ficar.”
E sentou resignada no banco de madeira do hospital. Agasalhou-se como pode, e passou a mão no ventre entumecido pelo inocente. Nada lhe restava fazer agora, apenas esperar. Ir para casa? Para que? Apenas ficar mais longe, mais desesperada.
“Deus, se não lhe salvar a vida, dá-me o direito de uma ultima palavra, por favor. Pelo menos isso...”
O corredor ecoava todo o seu silêncio, não havia nem choros, nem risos. Nem mesmo murmúrios de conversas abafadas. Apenas Leila e seus pensamentos em rodopios.
Mansamente o tempo esvaia-se. Leila sentia que o final não seria feliz. Ela sabia que as chances de recuperação eram poucas. Entendia que Dr. Renato escolhia as palavras, por que ela estava de sete meses de gestação.
O banco era desconfortável, mas a vida também era desconfortável, e a sua consciência era ainda mais desconfortável.
Se pudesse voltar atrás. Se pudesse desfazer o que fez. Essa escolha agora não lhe era dada. Há erros que não se tem como consertar, apagar, nem mesmo rasurar. Ela teria que conviver com isso. Teria que carregar esses últimos seis meses em sua memória, e tentar se perdoar.
Nunca imaginou que o tempo seria tão cruel; somente quando atendeu o telefonema do hospital; entendeu que a vida tinha passado, e ela covardemente deixara escapar pelos seus dedos. Estava tão magoada, que nem viu o quanto a magoou.
Agora, caprichoso, o tempo passava vagarosamente na penumbra do corredor do hospital.
Começa amanhecer, escuta os carrinhos com as xicaras de café para os pacientes. O hospital parece aos poucos estar criando vida.
Dr. Renato se aproxima, percebe-se em seu semblante a noite não dormida.
- “Leila, ela apresentou uma pequena melhora, mas seu estado ainda é grave e delicado. Você pode vê-la, mas seja breve. Ela precisa descansar.”
Leila caminha para a UTI, suas pernas tremem, seu coração bate descompassadamente.
No quarto, a figura doce e miúda habita o leito. Ela se aproxima, acaricia o rosto amado, e deita a cabeça na mão amiga. Chora, como se todas as lágrimas do passado jorrassem para fora do seu corpo. Tenta se controlar, mas a emoção é muito forte. Balbucia: “Minha mãezinha... Eu te amo.” Busca novamente o equilíbrio, tem muito a dizer.
-“Mãezinha, você estava certa, o Ivan não deixou a mulher dele, e nem quis saber do nosso filho, que carrego no ventre, falou em aborto... Eu não voltei para casa por vergonha, ou melhor, por orgulho, porque não tinha a coragem de te dizer que estavas certa, que tinhas razão... Ouça-me mãezinha... Perdoe-me por não te ouvir, por todas as palavras ríspidas e duras que falei, por ter me afastado, e ainda evitado estar contigo... Perdoe-me por cada gesto, cada grito, cada pensamento, cada frase, cada ausência, com que a magoei tão violenta e profundamente. Ah, mãezinha, como me arrependo, tu não merecias isso de mim... Eu fui uma péssima filha, só te dei tristezas e dissabores... Eu só tenho a ti, eu te amo, mãezinha... Fui insensata, louca, fui deplorável.”
Suavemente os dedos da mãe afagaram as pontas dos cabelos da filha...
“Filhinha, eu não te perdoo...”
Leila levanta a cabeça com rosto molhados de lágrimas: “ah, mãezinha, nem eu me perdoo.”
“Filha, eu não te perdoo, eu te amo.”

Dia dos Namorados

domingo, 12 de junho de 2011

O Príncipe

sábado, 11 de junho de 2011




Eu sei que as pessoas costumam dizer, isso nunca aconteceu comigo...
Bem isso nunca aconteceu comigo, até aquele dia.
Acho que eu sempre fui muito envolta no futuro, no amanhã, e encontrar o príncipe encantado, constituir uma família cheia de filhos... Bem, para variar era isso que pensava enquanto escolhia alface no supermercado. Era uma dificuldade, pois os ditos estavam meio murchos, e eu queria pelo menos um para fazer aquele sanduiche que eu adoro e queria tanto comer. Sem alface o sanduiche não iria ficar como eu gosto... Bem, tive que pegar uma alface mais ou menos, ou melhor, mais para menos; dava para quebrar um galho.
Estava com as compras completas, mas mesmo assim percorri ainda os corredores do supermercado, para ter a certeza que não tinha esquecido nada. Eu ficaria irritada ao chegar em casa, e perceber que tinha esquecido algo. Eu moro sozinha, num apartamento ovo. Verdade... É assim: você abre a porta, e já está na janela; espirra e cai lá fora. Bem estou brincando, mas ele é pequeno mesmo. Mas ele tem algo importante para mim, ele é meu. O primeiro apartamento que pude comprar e estava totalmente quitado. Ele é meu castelo, um tanto pequeno, mas meu pequeno reino. Agora eu partira para uma nova empreitada. Tinha pensado muito, muito mesmo e comprei um carro. Faz mais ou menos dois meses. Estou pagando em 36 vezes. Ficou bastante puxado para o meu salário, mas mesmo assim eu comprei. Ele é o modelo mais básico, ele é o que não tem... Não tem vidro elétrico, não tem ar condicionado, não tem banco de couro, não tem som, não tem etc, etc , etc... Mas anda, e muito bem. É todo branco como neve. Não que eu tenha visto neve, mas já vi em filme...
Socorro, olha a fila da caixa do supermercado! Está imensa! As outras também estão grandes. Vai essa mesmo...
Gente, tem um homem lindo na fila do caixa. Não na minha fila, lá na ponta. Ele está com sorte pois já está pagando. É alto, olhos claros, cabelo escuro, mas como é lindo!!! É tudo de bom... Já está saindo do supermercado. Comigo é assim, quando eu vejo alguém interessante, já está indo embora. Eu aqui pesando laranjas, e o homem que poderia ser o da minha vida, nem entrou nela. Deixa para lá.
Um dia vai aparecer alguém maravilhoso para mim.
Vou saindo lentamente, já estou sem pressa mesmo. Tenho um sofá e uma tv me esperando em casa. Êta programinha de sexta feira...
Onde está meu carrinho neve? Onde deixei? Ah, está ali, mesmo básico ele é lindinho...
Eu abria o porta mala, e começava a colocar as compras, quando eu sei lá porque, dei uma olhada rápida para o estacionamento. Gente! É ele! O lindo da fila do supermercado! Meu Deus, ele me viu... Está sorrindo para mim... Minhas mãos começam a suar... Retribuo o sorriso, o meu melhor sorriso. Tento me controlar e voltar a colocar as compras no carro. Mas não dá arrisco um olhar... Socorro, ele está vindo para cá. Que faço? Entro no carro e saio correndo? Logico que não. Calma, calma, calma. Ele está mais próximo. Bem, coragem; levanto os olhos e o encaro graciosamente. Ele irradia mais o seu sorriso. E para na minha frente. Uau, é mais bonito de perto.
E aí meu herói fala suas primeiras palavras: Você não vai acreditar, mas isso é um assalto. É uma cantada bem diferente, provavelmente vai dizer que vai roubar meu coração, o que já roubou faz meia hora. Resolvo rir como se a brincadeira fosse engraçada...
Ele fala: Não é brincadeira, querida. Isto é mesmo um assalto, e se fizer tudo que lhe mandar você não sofrerá nada.
Meu Deus, ele estava falando de verdade. Fiquei muda, de medo, de choque, de pânico. Aquele deus era o diabo, e me tinha nas mãos.
Tentei olhar em busca de socorro, mas foi em vão...
As mãos fortes seguraram meus braços num falso abraço e me encaminharam ao meu carro.
Ele sorriu, e disse: Você dirige, se não me obedecer, já imagina o que acontece...
Sentado ao meu lado, com uma pistola preta, começou a dar ordens: sai do estacionamento e siga a rua principal. Com meu coração disparado, e lágrimas de medo escorrendo em meus olhos, obedeci.
Siga para seu caixa eletrônico..
Eu estava apavorada, nem sabia o que pensar. Eu não via nenhuma saída, a não ser acatar.
Saímos do carro, num abraço falso. Apertou-me o braço e disse: Pare com esse choro. Arrastou-me para o caixa, e disse: Tudo.
“É só isso? Está escondendo a grana?
Não! Não! Tenho muitas contas para pagar inclusive o carro.
Acha que sou um tolo falou em voz baixa e meiga.
Acha que sou rica, dou um duro danado para me manter; trabalho feito uma condenada...
Estou ficando cansado de suas manhas e dos seus choros. Venha!. Eu tremi, mais ainda.
Voltamos ao carro. Abra o porta mala.... Eu o fiz. Entre nele, e fique quieta Fiquei um pouco temerosa, mas entrei; não tinha escolha.
O carro começou a se movimentar, e lá estava eu, sem mais nenhum tostão, nenhuma dignidade, o príncipe era um sapo ladrão, e eu a donzela em perigo dentro de um porta mala. Não era nada disso que imaginei, ou que sonhei. Pensei num final feliz, e não uma manchete no jornal: encontrado o corpo de uma linda mulher no meio do matagal... Ah, Deus, esse não pode ser o meu fim... Ajude-me, mande a polícia, o exército, o corpo de bombeiro!!! Mande alguém que me ajude!!!
Respirei profundamente, buscando um pouco de calma. E me lembrei de uma entrevista sobre segurança... Era isso! Obrigada Deus, é um começo...
Comecei a quebrar o farol traseiro com o meu salto do sapato. Foi bem difícil, mas eu consegui... E comecei, a tentar chamar atenção com as mãos...
E rezei, rezei, rezei; com todo o fervor da minha vida. Era uma chance.
O carro seguia correndo, sei lá para onde; mas sei que estávamos na cidade. De repente o carro acelerou mais, e mais... Ouvi outros carros pareciam também correr...
Sim, perseguiam... Mais velocidade... Mais velocidade... Estava difícil me segurar no sacolejar do porta mala...
De repente, uma brecada brusca, forte, o carro roda uma, duas, três vezes, e bate... Estou viva, eu acho... Tiros... São tiros!!! Encolho-me toda, fico mais apavorada ainda... Depois silêncio, muito silêncio, tento saber o que acontece, mas não tem como...
Passam-se uns minutos, uma eternidade... O porta mala abre... O policial fala: Você está bem? Agora está em segurança. Está machucada? Nada falei... Apenas olhei em seus olhos gentis e chorei desesperadamente. Ele mansamente afagou meus cabelos, dizendo Calma, vai ficar tudo bem.. E carinhosamente aninhou o meu corpo e carregou-me nos braços até uma ambulância...
Nada mais me lembro depois disso. Acordei num quarto de hospital. E a primeira coisa que lembrei foi os olhos do meu salvador, nem sabia o seu nome para poder agradecer...
A enfermeira contou-me que eu tinha tido sorte, pois o príncipe sapo era um marginal perigoso e procurado pela policia. Você nasceu de novo...
Eu ainda permanecia no hospital, quando entraram no meu quarto três policiais fardados, perguntaram como eu estava, disseram que o marginal já estava preso, que eu tinha sido muito inteligente de quebrar o farol...
Mas eu prontamente reconheci os olhos do meu salvador, eram meigos, fortes, protetor. Na sua farda, seu nome Maia. Ele se aproximou de mim, segurou minha mão, e disse: Queríamos saber como está, você foi muito corajosa, mas passou um susto em tanto. Foi quando as minhas primeiras palavras saíram de minha boca: Estou viva graça a você, Maia, muito obrigada.. Em que Maia respondeu: não fui só eu, meus dois colegas estavam lá também..."  Olhei a eles com olhar agradecido, e murmurei emocionada, muito obrigada mesmo...
Eles partiram. No dia seguinte, chegou um buque de rosas vermelhas, com um cartão: Seus olhos falam muito. Não consigo parar de pensar em você. João Maia
Bem, queridas, foi assim que aconteceu, perdi totalmente o carro, nada restou dele, o dinheiro também evaporou, quase beijei o sapo, e encontrei meu príncipe...
Hoje eu e João nos casamos, eu agora sou Alice Maia, a esposa do meu herói, agora não mais sonho com o futuro, eu o vivencio.