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Corredores

sábado, 18 de junho de 2011


Nos corredores frios do hospital Leila espera... O que? Ela nem quer imaginar. Esperança, milagre, benção; na verdade qualquer coisa, que afaste essa dor tão próxima.
Levanta, vai à máquina de café, e coloca uma moeda, para tentar aquecer o corpo; já que sua alma está gelada. Teimosas lágrimas escapam por seus olhos verdes.
Ela caminha um tanto trôpega, do cansaço, do frio, da falta de alimentação, do corpo pesado que apenas espera.
Dr. Renato se aproxima, e mansamente diz: “temos que aguardar...”.
-“Eu preciso vê-la.”
-“Leila, agora não. Vá para casa, descanse um pouco.”
-“Você não entende, preciso falar com ela antes que seja tarde. Vou ficar aqui, vou esperar aqui, não me importa por quanto tempo.”
-“Leila, você não a está ajudando em nada ficando aqui, precisa descansar; ela vai precisar muito de você depois.”
-“Eu entendo, Dr. Renato; mas vou ficar.”
E sentou resignada no banco de madeira do hospital. Agasalhou-se como pode, e passou a mão no ventre entumecido pelo inocente. Nada lhe restava fazer agora, apenas esperar. Ir para casa? Para que? Apenas ficar mais longe, mais desesperada.
“Deus, se não lhe salvar a vida, dá-me o direito de uma ultima palavra, por favor. Pelo menos isso...”
O corredor ecoava todo o seu silêncio, não havia nem choros, nem risos. Nem mesmo murmúrios de conversas abafadas. Apenas Leila e seus pensamentos em rodopios.
Mansamente o tempo esvaia-se. Leila sentia que o final não seria feliz. Ela sabia que as chances de recuperação eram poucas. Entendia que Dr. Renato escolhia as palavras, por que ela estava de sete meses de gestação.
O banco era desconfortável, mas a vida também era desconfortável, e a sua consciência era ainda mais desconfortável.
Se pudesse voltar atrás. Se pudesse desfazer o que fez. Essa escolha agora não lhe era dada. Há erros que não se tem como consertar, apagar, nem mesmo rasurar. Ela teria que conviver com isso. Teria que carregar esses últimos seis meses em sua memória, e tentar se perdoar.
Nunca imaginou que o tempo seria tão cruel; somente quando atendeu o telefonema do hospital; entendeu que a vida tinha passado, e ela covardemente deixara escapar pelos seus dedos. Estava tão magoada, que nem viu o quanto a magoou.
Agora, caprichoso, o tempo passava vagarosamente na penumbra do corredor do hospital.
Começa amanhecer, escuta os carrinhos com as xicaras de café para os pacientes. O hospital parece aos poucos estar criando vida.
Dr. Renato se aproxima, percebe-se em seu semblante a noite não dormida.
- “Leila, ela apresentou uma pequena melhora, mas seu estado ainda é grave e delicado. Você pode vê-la, mas seja breve. Ela precisa descansar.”
Leila caminha para a UTI, suas pernas tremem, seu coração bate descompassadamente.
No quarto, a figura doce e miúda habita o leito. Ela se aproxima, acaricia o rosto amado, e deita a cabeça na mão amiga. Chora, como se todas as lágrimas do passado jorrassem para fora do seu corpo. Tenta se controlar, mas a emoção é muito forte. Balbucia: “Minha mãezinha... Eu te amo.” Busca novamente o equilíbrio, tem muito a dizer.
-“Mãezinha, você estava certa, o Ivan não deixou a mulher dele, e nem quis saber do nosso filho, que carrego no ventre, falou em aborto... Eu não voltei para casa por vergonha, ou melhor, por orgulho, porque não tinha a coragem de te dizer que estavas certa, que tinhas razão... Ouça-me mãezinha... Perdoe-me por não te ouvir, por todas as palavras ríspidas e duras que falei, por ter me afastado, e ainda evitado estar contigo... Perdoe-me por cada gesto, cada grito, cada pensamento, cada frase, cada ausência, com que a magoei tão violenta e profundamente. Ah, mãezinha, como me arrependo, tu não merecias isso de mim... Eu fui uma péssima filha, só te dei tristezas e dissabores... Eu só tenho a ti, eu te amo, mãezinha... Fui insensata, louca, fui deplorável.”
Suavemente os dedos da mãe afagaram as pontas dos cabelos da filha...
“Filhinha, eu não te perdoo...”
Leila levanta a cabeça com rosto molhados de lágrimas: “ah, mãezinha, nem eu me perdoo.”
“Filha, eu não te perdoo, eu te amo.”

1 comentários :

vanessa clear disse...

oi,gostei muito...
segue ai gente
(sentimentos ao vento) blog de reflexão e pensamentos
http://vivaviva80.blogspot.com/

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