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Nada

sexta-feira, 3 de junho de 2011



É manhã de um dia claro e límpido. Sou envolvido por minhas lembranças. Suavemente acaricio seu travesseiro vazio.
Digo, em frases murmuradas: “Meu amor, hoje é nosso aniversário. Cinquenta e dois anos! Uma vida toda! Pensou que eu fosse esquecer? Lógico que não!”.
Uma lágrima teimosa percorre meu rosto enrugado do tempo. Olho o porta retrato, em que você me sorri desejando um bom dia. Sorrateiramente levanto meu corpo dolorido. Ao espelho, naquele que hoje sou, encarro os olhos de desesperança. Nesse olhar volto a nossa juventude...
Nós dois rindo nas ondas do mar, nas brincadeiras, nos mergulhos, no seu corpo envolto em meus braços. Depois a brisa, o arrepio, nossos beijos. Ladra dos meus sonhos, do meu sono, da minha vida; nada me restou sem você... Arrastei-me por esses anos de ausência, sobrevivendo à saudade insana.
Saio caminhando pela rua. Dia ensolarado descolorido. Sigo no descaminho daquele que já se aposentou do trabalho, e da vida.
Na banca de revistas, as manchetes, os acontecimentos, agarro um jornal sem ler. Preciso fingir uma vida normal, como todos...
No caminho de volta, as lembranças me assolam, nosso noivado, seus olhos arregalados surpresos, o sim tantas vezes repetidos, as juras de amor. Era tudo tão lindo, tão doce, tão maravilhoso. Sinto suas mãos quentes na minha.
Hoje completamos 52 anos, uma eternidade. Eu me revolto. Eu me sufoco. Mas esse amor brota, renasce, se mantém. Nada há que fazer. Apenas chorar, lamentar, gritar e se resignar. Sou sua presa, seu escravo, sou apenas seu...
No desespero dos meus passos, caminho a esmo, sem observar aonde vou.
Paro em frente à casa branca, de muro baixos, com cheiro de grama; que tanto os meus pesadelos povoou. Fico. Insisto em ir, mas minhas pernas paralisam, meus pés não me obedecem. Minha mente me avisa: parte, moribundo, daqui! O coração teima, as lágrimas rolam. Você não esta mais comigo, meu amor.
Encosto em um muro e observo. Perco a noção do tempo, só sei que faz 52 anos.
A porta mansamente se abre, e suas mãos enlaçadas nas de outro saem.
Por que lhe disse que não lhe amava? Por que menti? Por que fugi? Por que destruí minha vida assim? Por que teimo em buscar o seu olhar? Porque seus olhos só me respondem que passou, acabou, que nada sou?

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